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O QUE VOCÊ DEVE SABER SOBRE DOENÇAS GENÉTICAS COM FREQÜÊNCIA AUMENTADA EM JUDEUS

* Esta é uma adaptação de um panfleto informativo da "National Foundation for Jewish Genetic Diseases", sediada nos EUA e que tem como objetivo financiar pesquisas e informar o público e a comunidade médica sobre as doenças genéticas mais comuns na comunidade judaica, visando o progresso no sentido da cura e/ou prevenção das mesmas. Esta entidade foi fundada em 1974 devido ao desejo de ajudar indivíduos judeus e suas famílias que sofrem de doenças genéticas; seus fundadores acreditam que nenhuma criança deve nascer neste mundo para sofrer.

Em praticamente todo grupo étnico, racial ou demográfico, algumas doenças genéticas ocorrem com maior freqüência em seus membros do que na população geral. Tal afirmativa também se aplica aos judeus; serão brevemente descritos alguns problemas que afetam preferencialmente os judeus de ascendência Ashkenazi. Alguns são problemas crônicos e incapacitantes, e outros doenças extremamente graves que inevitalmente levam à morte na infância.

Cada doença será descrita com os sintomas apresentados, natureza do defeito genético envolvido, métodos diagnósticos (incluindo detecção de portadores e diagnóstico pré-natal) e tratamentos disponíveis. O programa de rastreamento de pessoas portadoras (logo, potencialmente transmissoras das doenças para seus descendentes) já existe nos EUA, Canadá, França, Inglaterra e Israel desde a década de 70, tendo suas sementes sido lançadas na década de 60 por alguns geneticistas preocupados com o bem estar dessas comunidades. Na fase inicial do programa, os exames eram bem mais limitados e de execução mais complexa. Com o progresso galopante da Genética nesta última década, principalmente da genética molecular e análise direta de DNA, foi possível adicionar rastreamento para mais algumas doenças, além de técnicas que já estão em estudo para o tratamento de certas moléstias genéticas. Para o sucesso de um programa de rastreamento, são essenciais quatro fatores básicos:
  1. Consciência da comunidade envolvida no que diz respeito à gravidade das doenças e importância de prevenção de novos casos.
  2. Envolvimento dos rabinos da comunidade (sem importar a linha específica da religião adotada por cada um, dos mais ortodoxos aos mais liberais), no sentido de educar ainda antes do casamento sobre a importância dos exames, além de dar suporte às famílias atingidas por tais doenças.
  3. Informação da classe médica, principalmente obstetras, que ainda podem fornecer aos casais orientação visando prevenção em fase pré-gestação idealmente ou em fase muito inicial de uma gravidez.
  4. Excelência do laboratório onde são realizadas as análises, além de suporte por geneticista clínico para o aconselhamento genético, orientação quanto a alternativas reprodutivas e compreensão correta dos resultados pelo casal envolvido.
Todas as doenças que serão mencionadas a seguir têm uma prevalência maior em judeus e são herdadas através de um caráter AUTOSSÔMICO RECESSIVO. Isso significa que, para nascer um bebê afetado, ambos componentes do casal devem ser portadores do gen (que não se manifesta quando há um seguundo gen normal). Quando ambos os cônjuges são portadores do gen anômalo para a mesma doença (e apenas nesses casos), há um risco de 25% (ou 1/4) de um bebê afetado. Se apenas um dos componentes do casal for portador do gen, o risco de um filho afetado torna-se desprezível.

Na tabela abaixo exemplificamos o risco de pessoa na comunidade ser portadora, a probabilidade de casal ser portador e a incidência geral do nascimento de afetados (lembrar sempre que para um casal de portadores o risco de um bebê afetado seria de 25%):

DOENÇA PORTADORES DO GEN CASAIS EM RISCO INCIDÊNCIA GERAL DE AFETADOS
Tay-Sachs 1/25 1/625 1/2500
Gaucher 1/15 1/225 + 1/1500
Fibrose Cística 1/25 1/625 1/2500






DOENÇAS PARA AS QUAIS É INDICADO O RASTREAMENTO EM CASAIS JUDEUS:

1) Doença de Tay-Sachs: trata-se de erro metabólico, onde uma enzima fundamental para o metabolismo das gorduras (Hexosaminidase A) é deficiente. Por este motivo, uma substância tóxica acumula-se pricipalmente nas células do sistema nervoso. Crianças afetadas nascem aparentemente normais, indo apresentar um atraso importante no desenvolvimento, notado a partir dos 4-8 meses de vida. Não chegam a sentar, andar ou falar, e apresentam convulsões de difícil controle. Não há nenhum tratamento disponível, e a doença evolui inevitavelmente para o óbito até os 5 anos de vida.

A deteção dos casais em risco é feita a partir de exame de sangue para dosagem da enzima envolvida e análise do gen de Tay-Sachs (por DNA). A segurança dos resultados é de 99% de detecção. Caso ambos sejam portadores, podem optar por um diagnóstico no feto numa fase bem precoce da gravidez (ver abaixo nas técnicas para diagnóstico pré-natal).

2) Doença de Gaucher: também envolve erro no metabolismo das gorduras devido a deficiência de uma enzima (beta-glucosidase ácida). Nesses casos, a substância não metabolizada fica acumulada no fígado, baço e medula óssea, podendo causar alterações sanguíneas (anemia, sangramentos), dores ósseas e fraturas. Os pacientes afetados têm inteligência normal. Já há tratamento para esta doença através de infusão periódica da enzima. No entanto, o tratamento deverá ser contínuo por toda a vida e custa em média US$10.000,00 por mês.

A detecção dos casais em risco também é feita através de exame de sangue, onde é testada a presença do gen para a doença de Gaucher. A detecção é de 90% dos portadores. O diagnóstico pré-natal pode ser aplicado no caso de ambos os pais serem portadores.

3) Fibrose Cística: conhecida também como mucoviscidose, a fibrose cística (FC) é doença crônica e progressiva, onde glândulas do organismo que produzem muco, suor e secreções intestinais na pessoa afetada não funcionam normalmente. A pessoa com FC tem uma tendência a desenvolver problemas respiratórios, pneumonias de repetição e problemas digestivos (de absorção de alimentos e certas vitaminas). Em geral o diagnóstico é feito na infância; não há cura para a FC, que pode evolluir para problema crônico incapacitante. Os métodos atuais de tratamento visam uso freqüente de antiibióticos e fisioterapia respiratória, além de uso de certas enzimas para melhorar a absorção dos alimentos. Cerca de metade das pessoas com FC sobrevivem até os 30 anos.

Para detectar casais em risco de gerar crianças com FC, pode-se testar no sangue a presença do gen da FC (são testadas as variantes mais freqüentes deste gen). Em casais de judeus ashkenazi, a detecção é de 95% dos portadores; em não-ashkenazi a detecção é de 85% com os exames atuais. Quando ambos componentes do casal são portadores do gen da FC, pode ser realizado o diagnóstico pré-natal.



Diagnóstico pré-natal: é indicado para pesquisa das doenças acima descritas no feto caso ambos os componentes do casal sejam portadores (logo, estariam correndo risco de 25% de gerar bebê afetado). É feito já com a gravidez em andamento, em fase inicial, através da biópsia de vilosidades coriônicas (10-12 semanas de gestação) ou amniocentese (14-20 semanas). É colhido material do feto, que será analisado para o problema em questão (caso haja interesse do casal, pode também ser feita análise dos cromossomos no mesmo material, para detectar a Síndrome de Down, entre outras). O risco de complicação à gravidez pelos procedimentos invasivos é de 1,5% para biópsia de vilo e de 0,5% para amniocentese (logo, tais procedimentos são apenas justificados se os riscos de um bebê afetado forem maiores do que os riscos do procedimento). No caso de diagnóstico desfavorável, muitas vezes a opção do casal acaba sendo a interrupção da gravidez.

* Os exames para detecção de portadores para as doenças acima já estão disponíveis, apesar de ainda pouco divulgados no Brasil. Eles fazem parte de qualquer rotina pré-gestacional ou pré-natal precoce em casais judeus nos E.U.A., Canadá, França, Israel, Inglaterra, entre outros. No Brasil, ainda há uma limitação para a implantação de tal programa como rotina não apenas pelos custos como também pela complexidade do controle de qualidade laboratorial muito específico exigido para tais análises. As possibilidades para testagem atual neste país são:
  1. Testagem para Doença de Tay-Sachs apenas, através de análise enzimática
  2. Testagem para todas as doenças (Tay-Sachs, Gaucher e Fibrose Cística) através do DNA
É fundamental a orientação prévia ao exame, acompanhamento do andamento do mesmo e transmissão dos resultados por médico geneticista, afim de compreensão das questões e esclarecimento de dúvidas do casal testado.
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